(artigo publicado no jornal Gazeta Lusófona)
Os operários do túnel de Stägjitschugge, perto de Viège (Valais), na estrada que leva a Zermatt, entre Stalden e St. Niklaus, conhecem bem a noite. Trabalham à luz dos projectores e das suas lanternas frontais durante 8.30 horas por dia.
Em maio 2006, festejou-se o centenário, da inauguração do túnel do Simplon (que registou alguns acidentes ao longo da sua construção (58 mortes), epidemias de tifo, greves. Actualmente estão em construção as NLFA (Novas ligações ferroviárias alpinas) do Lötschberg e Gothard, todas estas construções despertaram o nosso interesse, por isso gostaríamos de falar sobre a construção de um túnel de menor envergadura, mas bem representativo das dificuldades deste trabalho.
Em 100 anos, as máquinas substituíram praticamente os homens, o número de operários necessários para estas construções diminuíram bastante : tuneladoras e máquinas perfuradoras multibraços, em vez da força sobre-humana de antigamente. Mas as dificuldades são muitas e os riscos também. Os trabalhadores estrangeiros (sobretudo italianos) vieram em grande número para construir as grandes obras na região do Valais.
E isso ainda continua actualmente. Cada vez há mais portugueses nas equipas
de mineiros ( 20 a 60 %).
O nosso guia, António Almeida, é português. Natural da região de Pampilhosa da Serra.
Especialista em explosivos, ele leva-nos dentro do túnel, primeiro de camioneta e depois a pé. Ele gosta do que faz e vê-se. Para nós é diferente, o ambiente é opressivo. Continuamos.
A galeria de socorro perfurada em 2004.“ Normalmente não usamos máscara , este túnel tem uma boa ventilação. Não se pode dizer sempre a mesma coisa doutros“, explica-nos ele continuando o caminho até à máquina perfuradora „Robodrill“. Cada 2 anos têm que fazer um exame aos pulmões.
Duas equipas de operários partilham os dois turnos, das 6.00 às 23.00, todos os dias de 2a a 6a feira, folga no sábado e domingo. Noutros túneis, as equipas revezam-se de 24 em 24 horas.
Um trabalho árduo. Os operários, praticamente todos condutores de máquinas, possuem uma grande experiência adquirida nos trabalhos anteriormente efectuados em túneis ou minas.
O dinheiro não paga tanto esforço. Há que ter muita coragem para trabalhar nestas condições.
Mesmo se eles são relativamente bem pagos em relação a outras profissões da construção civil (mais 20 a 30 %), ainda é preciso ter muita coragem para enfrentar certas situações.
António Almeida acrescenta que alguns trabalhadores vêm começar o trabalho e depois de alguns dias não voltam mais.
Francisco Freitas, condutor de máquinas na construção civil em Portugal, veio para a Suíça há 17 anos e trabalhou logo nos túneis. Depois de ter trabalhado no Lötschberg, enfrenta agora mais um desafio e explica-nos em detalhe o desenrolar do trabalho.
A tuneladora perfura duas galerias: uma galeria piloto e uma galeria de socorro. A galeria piloto tem 3 a 4 metros de diâmetro e serve de fio condutor para a construção do túnel.
Depois entra em acção uma máquina de perfurar multibraços a que se dá o nome de Robodrill. Os braços desta máquina comandados por computador, fazem um buraco na rocha de 5,5 metros à volta da galeria piloto. Em seguida coloca-se o explosivo líquido (matrix), juntamente com os detonadores que fazem rebentar a rocha. Todo o material de escavação que se extraiu da parede é levado para fora do túnel.
Após a explosão e o trabalho de remoção dos escombros, o martelo pica as paredes para assim estabilizar e limpar toda a superfície e evitar a queda de rochas, que poderia provocar acidentes.
Só depois se pode começar a projectar cimento para consolidar as paredes, meter ferros de aproximadamente 4 metros de comprido pelas paredes adentro.
Por fim a escavação e a betonagem do solo.
Encontrámos ainda o Sr. Rogério Almeida, mecânico há 17 anos. É o operário mais velho, com 49 anos. Ele trabalhou nas minas de Cobre e Volfrâmio em Portugal, depois veio trabalhar para a Suíça. Sempre muito ocupado, sobretudo quando as máquinas avariam e é chamado de urgência.
Quando em 2008, passarem por este túnel, no espaço de alguns minutos, pensem nestes homens que tiveram que lutar como gigantes com a rocha, suportar o pó, o fumo, o barulho a humidade e enfrentar o escuro. São um pouco como extra terrestres ou operários no inferno.
Eles não são daqui. Talvez por isso eles vêm de longe, de muito longe. Poucas pessoas podem avaliar de facto a coragem destes homens. Ninguém falou de medo. Mas ele está lá. Apesar de tudo. Trabalhar no interior da terra é algo reservados aos heróis que não sabem que o são.
Rolf Dubach, engenheiro e responsável da obra.
O Engenheiro responsável desta obra , Rolf Dubach, passou 6 anos no Lötschberg, fala-nos desses operários que ele conhece bem e que admira. Ele sempre trabalhou com portugueses. Rolf Dubach fala-lhes em francês e nunca houve nenhum problema de comunicação.
De momento e felizmente, não houve acidentes neste túnel e as condições geológicas são favoráveis. No Lötschberg, ele foi confrontado com a morte de 5 operários. Momentos difíceis. Quanto aos acidentes, ele salientou que a rotina e a falta de atenção se podem revelar fatais.
Quando os trabalhos deste túnel acabarem, os operários não sabem qual vai ser o próximo trabalho. Por exemplo, os trabalhadores do Lötschberg , passaram de 1000 a 100 actualmente no lado do Valais. Muitos tiveram que se inscrever no desemprego.
Por vezes, o futuro deste trabalhadores, é uma incógnita e uma aventura.
Rolf Dubach , fala dos operários como de uma grande família, por exemplo voltou a encontrar um com quem já tinha trabalhado há 15 anos (no túnel do Regrouillon, Sierre- Nöes).
Alguns dados sobre o túnel de Stägjitschugge
Início: 2003
Galeria piloto: 15 junho 2004
Galeria de socorro: 16 de dezembro de 2004
Fim previsto : outono 2008
Comprimento: 2,3 km
Custo da obra estimada actualmente em: 105 milhões de francos
Avançam por dia: 9 m (até 11 m)
2 equipas que se revezam: 6 às 23 horas
Corte transversal: 70 m2
Número de operários: 50 (italianos, suíços , portugueses e originários dos países balcânicos)
Empresas que intervêm : Ulrich Imboden SA (30%), Prader Losinger SA; Murer-Strabag, Dénériaz, Theler ,Evéquoz.
Reportagem: Edite Correia e Clément Puippe

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