quinta-feira, 23 de junho de 2011

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Rui Nogueira veio acompanhado do seu mundo: o cinema, e que mundo!





(Entrevista  e texto: Clément Puippe e Edite Correia
Fotos: Clément Puippe)


Como quem chega de uma longa viagem carregado de bagagens, de recordações entranhadas  nos poros, e até a maneira de colocar o chapéu, o casaco comprido escuro, nos diz  e nos fala deste personagem que parece vir  de um outro tempo: o cinema. O brilho dos seus olhos, o timbre da voz, nos trazem noticias  desse mundo do qual sempre fez parte, que lhe cola à pele, que o construiu, o educou, como uma herança que se transporta na expressão do olhar, na maneira de saudar, com uma certa majestade e ao mesmo tempo uma generosidade e sinceridade que cativam e nos fazem ficar suspensos às suas vivências.

A ideia que sobressai neste encontro é de que na sua vida tudo foi acontecendo como uma sequência não programada e tão natural que espanta. Como se o incomensurável amor que Rui Nogueira tem pelo cinema desde sempre, lhe fosse devolvido aos poucos.

E ainda por cima ter tido o privilégio de partilhar a sua vida com uma mulher maravilhosa, Nicolleta Zalaffi, que o surpreendeu vezes sem conta com a justeza do seu julgamento sobre os filmes revelando um talento inato e bem feminino sempre ao serviço do cinema.

Encontrar Rui Nogueira foi uma lição de cinema, instalar-se confortavelmente na sala, fazer parte do filme e de repente entrar para a tela, aceder ao primeiro plano, contracenar com os actores que admiramos, conseguir aproximá-los e sentir-se único. O encontro com este homem não deixa indiferente, ele tem uma paixão pelas mulheres em geral. A sua mãe foi a primeira mulher de armas da sua vida e por quem nutre uma admiração imensa. Outra mulher que o marcou para sempre foi a sua esposa com quem  viveu 31 anos. Conta-nos que se viveram tantos anos juntos foi porque não eram feitos um para o outro.

Biografia resumida

Rui Nogueira nasceu a 28 de Setembro de 1938 no Porto. Com 4 anos vai viver para Moçambique
e para não perder o ano lectivo viveu durante algum tempo com um casal de enfermeiros que lhe transmitiram o amor pelo cinema. Volta para Portugal em 1961, mas logo se apercebe de que o seu caminho não é aquele e decide ir viver para Paris. Aí, graças aos seus grandes conhecimentos em cinema começa como jornalista a escrever para revistas desta área. Depressa surgem contactos com pessoas ligadas a este mundo, que sempre o fascinou. Estes contactos valem-lhe um contrato como assistente de realizador e mais tarde como colaborador da Cinemateca em Paris dirigida por Henri Langlois . Depois foi chamado a Genebra onde foi director do CAC (Centre d’Animation Cinématographique), entre 1978 e 2010.

Com 72 anos Rui Nogueira, dedicou a sua vida à 7ª  arte, iniciou este ano a sua colaboração com a Cinemateca Suíça de Lausana, em colaboração com o responsável desta organização,  Fréderic Maire.

A Fundação Rui Nogueira criada em Abril 2009, destina-se a conservar e preservar a grande colecção de DVD, bobines de filmes, livros, fotografias, partituras musicais com o objectivo de as passar para as futuras s gerações. “Será uma obra viva que terá o objectivo de dar a conhecer e despertar o gosto pelo cinema”.

O seu livro “Le cinéma selon Melville” publicado na Inglaterra em 1971, em França em 1973 e  traduzido em variadíssimos países, contem, na sua reedição francesa em 1995, uma dedicatória que é uma belíssima homenagem  à sua esposa, Nicoletta Zalaffi (1932-1994).

Quem lhe transmitiu o amor pelo cinema? Os seus pais?

Os meus pais não estavam ligados ao cinema. O meu pai sempre sonhou com uma grande propriedade mas não tinha nenhum talento para  a agricultura, foi a minha mãe que se ocupou sempre dos negócios, ela foi a primeira mulher que admirei na minha vida.
Fui para Moçambique tinha 4 anos. Quatro anos mais tarde, em Vila Gouveia, para não perder o ano lectivo devido à transferência do meu Pai, que era funcionário dos Correios, para uma outra localidade, fiquei durante uns meses em casa dum casal de enfermeiros, grandes cinéfilos, que me deram a paixão pelo cinema.. Quando mudámos para a cidade da  Beira, eu conhecia os filmes de cor mesmo sem os ter visto. Foi assim que começou a minha ligação com o cinema.


Voltou a Portugal em que ano?

Voltei só em 1961. Cheguei a Lisboa no dia 5 de Outubro às seis da manhã e às dez fui preso numa manifestação contra governo de Salazar.  Estive preso cerca de 30 horas. Dois meses mais tarde, voltei a ser identificado pela PIDE numa outra manifestação. No dia seguinte, à hora de me apresentar na esquadra da policia, estava já em Paris, que sempre foi, desde adolescente, o meu sonho secreto.. Se pudesse voltaria a ir viver ainda hoje para a capital da França.

Ao longo da sua carreira contactou com grandes nomes do cinema. Pode citar alguns?

Sim conheci os realizadores  Nicholas Ray, Jean Renoir, Samuel Fuller, Howard Hawks, Alfred Hitchcock e Otto Preminger, entre outros, e os actores Gene Kelly, Henry Fonda, Edward G. Robinson, Robert Ryan, Katharine Hepburn, Jane Russell, Charlton Heston e muito mais pessoas ligadas ao mundo do cinema, mas o mais importante é a experiência que vem através destes encontros.

Não gostaria de voltar para Portugal?

Agora é demasiado tarde para voltar para Portugal. Já em 1974, depois do 25 de Abril, era tarde demais. Estou ligado à França e à Suíça pela língua ou pelas pessoas ou mesmo através da gastronomia e aqui tenho mais estruturas.

O cinema é a vida?
Não o cinema não é a vida, se fosse a vida eu não ia ao cinema. Para citar um exemplo o realizador  Hitchcock  dizia que quando provocava a morte de um personagem num dos seus filmes a dificuldade era de encontrar a maneira original de filmar essa morte.

Fale-nos dos seus projectos?

Ainda tenho muitos  projectos…. Fui forçado a ir para a reforma. O que não consigo perdoar é a maneira como o fizeram. Agiram com muita falta de coragem e sem classe nenhuma... Digo frequentemente que a coragem não é uma qualidade helvética.

Sente-se que a sua mulher está e sempre esteve presente na sua vida.

Sim muito. Um homem pode ter muitas mulheres na sua vida, mas há só duas ou três que contam verdadeiramente. Na minha vida, foi ela quem mais contou. Uma vez, uma realizadora alemã, uma amiga nossa, admirada com a longevidade da nossa vida de casal quis saber qual era o nosso segredo. Disse-lhe: a nossa união dura porque não éramos feitos um para o outro.

Fale-nos da sua mulher e da importância que teve na sua vida.

A minha mulher tinha muitas vezes razão na forma como analisava os filmes. Uma vez  disse-me que um filme era mau e eu não queria admitir que ela tinha razão. Digamos que era um filme feito por um realizador cansado. Por causa desta ninharia estivemos à beira da separação. As mulheres, em geral, têm uma intuição, que lhes permite compreender e dar atenção a certos detalhes e subtilidades  que passam despercebidos aos homens.
A minha mulher fez muito pelo Manuel de Oliveira. Foi ela quem relançou a carreira dele em Veneza, na segunda metade dos anos setenta. Os filmes dele estavam programados no ultimo dia do Festival e todos os críticos importantes deviam partir na véspera. A minha mulher conseguiu convencê-los, um a um, a ficar mais um dia para verem os filmes do Oliveira. A retrospectiva foi um grande acontecimento e a carreira do cineasta arrancou de novo com o sucesso que se conhece.

Que filme nos aconselharia?

Não sigo com assiduidade a actualidade. Mas, o “Alice”  de Marco Martins (2005) e o “Transe” da Teresa Villaverde (2006) parecem-me ser obras muito importantes. “Alice” mostra-nos Lisboa de uma maneira original e muito atraente.


Nunca pensou em ter filhos?

Não, nunca quis filhos. A minha mulher teve dois gémeos do casamento anterior que foram “educados” pelo pai. Ela sofreu imenso com eles. Para mim, para a vida que sempre pretendi levar, nunca houve lugar para filhos. E nunca me arrependi da minha decisão.

Qual a sua relação com a religião?

Em mim não há nenhuma noção de religiosidade; nenhum sentimento de patriotismo. A minha religião, a minha pátria é o cinema.

Neste mundo do cinema a sedução é muito importante?

A sedução é importantíssima em todos os aspectos da vida. Ou pelo menos em todos os aspectos da minha vida.
Mesmo se tenho um certo número de princípios, penso como o Oscar Wilde: devemos apoiar-nos nos princípios porque um dia ou outro eles acabarão por ceder.

Como foram as relações com as pessoas durante a sua carreira?

Eu sempre tive muita franqueza. Não tenho papas na língua. Sou fiel em amizade, mas nunca evitei os conflitos.

Quais os seus projectos?

Ainda tenho muitos projectos se o tempo permitir vou pôr por escrito todas as bandas magnéticas que possuo. Posso dizer que tenho a minha colecção privada filmes americanos não legendados, mais de 1000 filmes que coleccionei.
Gostaria de fazer uma pedagogia cinematográfica a nível das escolas. Mas o projecto numero um é escrever sobre Cinema.

O que deve ao cinema?

Tudo. Não consigo imaginar a minha vida sem o cinema. Fui educado pelos meus pais, mas os meus exemplos de vida foram o Gary Cooper, o Errol Flynn, o John Wayne. E fiz uma  fusão entre o que os meus pais me disseram e o que ouvi no cinema. Os personagens de um filme devem ser maiores que eu, senão não há magia. Por exemplo na televisão os personagens são mais pequenos do que nos e é por isso que a televisão não terá a grandeza do cinema.

Preocupa-o a situação no mundo?

A nossa civilização chega ao fim. O futuro é a China... Estou contente de ter a idade que tenho.

Texto: Clément Puippe /Edite Dias Correia
Fotos: Clément Puippe



Rui Nogueira

domingo, 10 de abril de 2011

Genebra 9 de Abril 2011 -Concerto MARIZA




Fotos Clément Puippe



Envolta em luz e verdade entra Mariza vem de África e pertence ao Fado!
Presença transparente, esvoaçante de terra e cores, de pés bem assentes, nos 5 continentes.
Diapasão da nossa alma, vibra e busca nas entranhas do Fado, experimenta os sons inexplorados, nas profundezas e recantos, qual intrépido cavaleiro monge, abençoada Mariza!

Gratos de ser recebidos por Mariza, por nós e pelos nossos leitores, e sabendo o quanto é precioso o tempo desta artista, partilhámos um instante, de verdade, falámos de saudade, e guardaremos na lembrança a magia deste momento único  e a enorme alegria de pertencer também à gente da nossa terra!
A sala estava cheia e sentia-se uma saudável euforia no ar. Momentos assim são para saborear do principio ao fim, mesmo o que noutra ocasião poderia ser desagradável, naquele momento, eram simples detalhes sem importância e todos se preparavam religiosamente para aquele grande momento.
Fez-se silêncio, a Diva entrou sublime vestida  de negro, esbelto, folheado. Uma bela mistura de sons graves, agudos e  silêncio bem doseados e parecendo adivinhar o que cada pessoa tinha desejado para a sua noite tão esperada, tão especial.

No palco algumas mesas, pessoas a assistir, ambiente de taberna, Mariza senta-se e deixa os seus músicos sozinhos a tocar e cantar fado.

Num espectáculo tão natural em que a emoção flui e acontece, Mariza  passeou e cantou por entre o público, fez cantar a todos a canção “Rosa branca”, e comunicou em inglês para o público suíço que não compreendia o português. Pôs a sala a cantar, a rir, estabelecendo uma relação de cumplicidade como se de uma brincadeira de se tratasse. Um jogo que durou ainda alguns minutos num  “diálogo” com o público onde  houve canção, palavras, aplausos, risos e muita descontracção.

 

Acompanhada por 3 guitarristas: Ângelo Freire (guitarra portuguesa), Diogo Clemente(viola de fado),

José Marino de Freitas (baixo acústico).

 

 

Algumas perguntas:

 

O que representa o Fado para si? Ele faz parte da cultura portuguesa e tento representá-lo com  muito orgulho  e dá-lo a conhecer por onde vou.

 

Qual é a sua ligação com Moçambique? Não tenho nenhuma ligação com Moçambique a não ser as minhas origens. Cresci em Lisboa, vivo em Lisboa. Não tenho projectos específicos neste país ou em África.

 

Para si o que é a saudade? Todos os portugueses que vivem no estrangeiro são os verdadeiros embaixadores de Portugal e sabem o que é a saudade e são eles que podem melhor que eu responder a essa pergunta.

 

Ainda lhe sobra tempo para não fazer nada? O meu tempo tem que ser gerido de maneira diferente tendo em conta o meu trabalho. Não trabalho das 9.00 às 19.00, mas sou como toda a gente.

 

 

O seu equilíbrio onde o encontra? O meu equilíbrio encontro-o na minha família, junto dos que me querem bem. E a minha energia também vem da minha família.

 

Mas essa energia excepcional de onde vem? Isso vai ter que perguntar a Deus.

 

A vida fala-nos por sinais? Não sei. Eu vivo cada dia plenamente, um depois do outro.

 

O ritmo dos seus concertos comparando com outros artistas como Amália, não é cansativo? Os tempos são outros. Uma outra forma de vida.

 

Como é que o fado pode ser compreendido pelas pessoas que não entendem português?  A música não tem línguas  nem fronteiras pode ser escutado por toda a gente. É claro que existe muita poesia no fado. Portugal tem muitos bons poetas, Fernando Pessoa, Florbela Espanca. Porque não utilizá-los?   

 

Biografia:

 

Marisa dos Reis Nunes nasceu a 16 de Dezembro de 1973, na freguesia de Nossa Senhora da Conceição, na antiga Lourenço Marques.  É filha de pai português e mãe moçambicana. Cresceu em Lisboa e começou a cantar com 5 anos. Foi a influencia do seu pai que determinou o gosto da cantora pelo fado. Ouvia, Fernando Farinha, Fernando Maurício, Amália Rodrigues, Carlos do Carmo, entre muitos outros.Com cinco anos de idade, recebeu o seu primeiro xaile, e começou então a moldar a voz que a tornou famosa.
“Foi aqui que toda a história começou. Se calhar é aqui que vai acabar. Tudo pode acabar de repente, tal como começou, e eu volto à minha Mouraria e à taberninha dos meus pais para servir dobradinhas e copos de vinho que não me chateia nada!”


O seu talento é reconhecido no mundo inteiro e é posta no mesmo nível das maiores cantoras mundiais como: Ella Fitzgerald, Elis Regina,  Edite Piaf, Amália, Judy Garland. Resultado de muito trabalho, disciplina, entrega, voz e alma o que lhe tem valido o respeito e prémios em todo o mundo e nos meios mais conceituados.
 
Alguns prémios que recebeu ou para que foi nomeada:
Fundação Amália Rodrigues “Prémio Internacional” , maior divulgação da música portuguesa além fronteiras.
Em Portugal recebe o "Globo de Ouro", para "Melhor Interprete individual".
Medalha de Vermeil da Academia e Artes e Ciências e Letras de Paris, panteão dos grandes serviços prestados às artes e culturas.
Nomeação para um Grammy, Melhor Album Folk pelo CD Terra.

Discografia:

Fado em mim                       2001
Fado Curvo                          2003
Live in London                    2003
Transparente                        2005
Mariza                                  2006
Terra                                     2008
Terra em concerto                2009
Fado Tradicional                  2010


            
      


quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Herois da noite


Heróis da noite – os portugueses no centro da terra.

(artigo publicado no jornal Gazeta Lusófona)

 
Os operários do túnel de Stägjitschugge,  perto de  Viège (Valais), na estrada que leva a Zermatt, entre Stalden e St. Niklaus, conhecem bem a noite. Trabalham à luz dos projectores e das suas lanternas frontais durante 8.30 horas por dia.
Em maio 2006,  festejou-se o centenário,  da inauguração do túnel do Simplon (que registou alguns acidentes ao longo da sua construção (58 mortes), epidemias de tifo,  greves. Actualmente estão em construção as NLFA (Novas  ligações ferroviárias alpinas) do Lötschberg  e  Gothard, todas estas construções despertaram o nosso interesse, por isso gostaríamos de falar sobre a construção de um túnel de menor envergadura, mas bem representativo das  dificuldades deste trabalho.
Em 100 anos, as máquinas substituíram praticamente os homens, o número de operários necessários para estas construções diminuíram bastante : tuneladoras e máquinas perfuradoras multibraços, em vez da força sobre-humana de antigamente. Mas as dificuldades são muitas e os riscos também. Os trabalhadores estrangeiros (sobretudo italianos) vieram em grande número para construir as grandes obras na região do Valais.
E isso ainda continua actualmente. Cada vez há mais portugueses nas equipas
de mineiros  ( 20 a 60 %). 

O nosso guia, António Almeida, é português. Natural da região de Pampilhosa da Serra.
Especialista em explosivos, ele leva-nos  dentro do túnel,  primeiro de camioneta e depois a pé. Ele gosta do que faz e vê-se. Para nós é diferente, o ambiente é opressivo. Continuamos.
A galeria de socorro perfurada em 2004.“ Normalmente não usamos máscara , este túnel tem uma boa ventilação. Não se pode dizer sempre a mesma coisa doutros“, explica-nos ele  continuando o caminho até à máquina perfuradora „Robodrill“. Cada 2  anos têm que fazer um exame aos pulmões.
Duas equipas de operários partilham os dois turnos,  das 6.00 às 23.00, todos os dias de 2a  a 6a feira, folga no sábado e domingo. Noutros túneis, as equipas  revezam-se de  24  em 24 horas.  


Um trabalho árduo.  Os operários, praticamente todos condutores de máquinas, possuem uma grande experiência adquirida nos trabalhos anteriormente efectuados em túneis ou minas.
O dinheiro não paga tanto esforço. Há que ter muita coragem para trabalhar nestas condições.
Mesmo se eles são relativamente bem pagos em relação a outras profissões da construção civil (mais 20 a 30 %), ainda é preciso ter muita coragem para enfrentar certas situações.
António Almeida acrescenta que alguns trabalhadores vêm começar o trabalho e depois de alguns dias não voltam mais.  


Francisco Freitas, condutor de máquinas na construção civil em Portugal, veio para a Suíça há 17 anos e trabalhou logo nos túneis. Depois de ter trabalhado no Lötschberg, enfrenta agora mais um desafio e explica-nos em detalhe o desenrolar do trabalho.
A tuneladora perfura duas galerias: uma galeria piloto e uma galeria de socorro. A galeria piloto tem 3 a 4 metros de diâmetro  e serve de fio condutor para a construção do túnel.
Depois entra em acção uma máquina de perfurar  multibraços a que se dá o nome de Robodrill. Os braços desta máquina comandados por computador, fazem um  buraco na rocha  de 5,5 metros à volta da galeria piloto. Em seguida coloca-se o explosivo líquido (matrix), juntamente com os detonadores que fazem rebentar a rocha. Todo o material  de escavação que se extraiu da parede é levado para fora do túnel.
Após a explosão e o trabalho de remoção dos escombros,  o martelo pica as paredes para assim estabilizar e limpar toda a superfície e evitar a queda de  rochas, que poderia provocar acidentes.
 Só depois  se pode começar a projectar cimento para consolidar as paredes, meter ferros de aproximadamente 4 metros de comprido pelas paredes adentro. 
 Por  fim a escavação e a betonagem do solo.  


Encontrámos ainda o Sr. Rogério Almeida, mecânico há 17 anos. É o operário mais velho, com 49 anos. Ele trabalhou nas minas de Cobre e Volfrâmio em Portugal, depois veio trabalhar para a Suíça. Sempre muito ocupado, sobretudo quando as máquinas avariam e é chamado de urgência.             

Quando em 2008, passarem por este túnel, no espaço de alguns minutos, pensem nestes homens que tiveram que lutar como gigantes com a rocha, suportar o pó, o fumo, o barulho a humidade e  enfrentar o escuro. São um pouco como extra terrestres ou operários no inferno.
Eles não são daqui. Talvez por isso eles vêm de longe, de muito longe. Poucas pessoas podem avaliar de facto a coragem destes homens. Ninguém falou de medo. Mas ele está lá. Apesar de tudo. Trabalhar no interior da terra é algo reservados aos heróis que não sabem que o são. 



Rolf Dubach, engenheiro e responsável da obra.


O Engenheiro responsável desta obra , Rolf  Dubach,  passou 6 anos no Lötschberg, fala-nos desses operários que ele conhece bem e que admira. Ele sempre trabalhou com  portugueses. Rolf Dubach fala-lhes em francês e nunca houve nenhum problema de comunicação.
De momento e felizmente, não houve acidentes neste túnel e as condições geológicas são favoráveis. No Lötschberg, ele foi confrontado com a morte de 5 operários. Momentos difíceis. Quanto aos acidentes, ele salientou que a rotina e a falta de atenção se podem revelar fatais.
Quando os trabalhos deste túnel acabarem, os operários não sabem qual vai ser o próximo trabalho. Por exemplo, os trabalhadores do Lötschberg , passaram de 1000 a 100 actualmente no lado do Valais. Muitos tiveram que se inscrever no desemprego.
Por vezes, o futuro deste trabalhadores, é uma incógnita e uma aventura.
 Rolf Dubach , fala dos operários como de uma grande família, por exemplo voltou a encontrar um com quem já tinha trabalhado há 15 anos (no túnel do Regrouillon, Sierre- Nöes).

Alguns dados  sobre o túnel de Stägjitschugge

Início: 2003
Galeria piloto: 15 junho 2004
Galeria de socorro: 16 de dezembro de 2004
Fim previsto : outono 2008
Comprimento: 2,3 km
Custo da obra estimada actualmente em: 105 milhões de francos
Avançam por dia: 9 m (até 11 m)
2 equipas que se revezam: 6 às 23 horas
Corte transversal: 70 m2
Número de operários: 50 (italianos, suíços , portugueses e originários dos países  balcânicos)
Empresas que intervêm : Ulrich Imboden SA (30%), Prader Losinger SA; Murer-Strabag, Dénériaz, Theler ,Evéquoz.


Reportagem: Edite Correia e Clément Puippe