(Entrevista e texto: Clément Puippe e Edite Correia
Fotos: Clément Puippe)
Como quem chega de uma longa viagem carregado de bagagens, de recordações entranhadas nos poros, e até a maneira de colocar o chapéu, o casaco comprido escuro, nos diz e nos fala deste personagem que parece vir de um outro tempo: o cinema. O brilho dos seus olhos, o timbre da voz, nos trazem noticias desse mundo do qual sempre fez parte, que lhe cola à pele, que o construiu, o educou, como uma herança que se transporta na expressão do olhar, na maneira de saudar, com uma certa majestade e ao mesmo tempo uma generosidade e sinceridade que cativam e nos fazem ficar suspensos às suas vivências.
A ideia que sobressai neste encontro é de que na sua vida tudo foi acontecendo como uma sequência não programada e tão natural que espanta. Como se o incomensurável amor que Rui Nogueira tem pelo cinema desde sempre, lhe fosse devolvido aos poucos.
E ainda por cima ter tido o privilégio de partilhar a sua vida com uma mulher maravilhosa, Nicolleta Zalaffi, que o surpreendeu vezes sem conta com a justeza do seu julgamento sobre os filmes revelando um talento inato e bem feminino sempre ao serviço do cinema.
Encontrar Rui Nogueira foi uma lição de cinema, instalar-se confortavelmente na sala, fazer parte do filme e de repente entrar para a tela, aceder ao primeiro plano, contracenar com os actores que admiramos, conseguir aproximá-los e sentir-se único. O encontro com este homem não deixa indiferente, ele tem uma paixão pelas mulheres em geral. A sua mãe foi a primeira mulher de armas da sua vida e por quem nutre uma admiração imensa. Outra mulher que o marcou para sempre foi a sua esposa com quem viveu 31 anos. Conta-nos que se viveram tantos anos juntos foi porque não eram feitos um para o outro.
Biografia resumida
Rui Nogueira nasceu a 28 de Setembro de 1938 no Porto. Com 4 anos vai viver para Moçambique
e para não perder o ano lectivo viveu durante algum tempo com um casal de enfermeiros que lhe transmitiram o amor pelo cinema. Volta para Portugal em 1961, mas logo se apercebe de que o seu caminho não é aquele e decide ir viver para Paris. Aí, graças aos seus grandes conhecimentos em cinema começa como jornalista a escrever para revistas desta área. Depressa surgem contactos com pessoas ligadas a este mundo, que sempre o fascinou. Estes contactos valem-lhe um contrato como assistente de realizador e mais tarde como colaborador da Cinemateca em Paris dirigida por Henri Langlois . Depois foi chamado a Genebra onde foi director do CAC (Centre d’Animation Cinématographique), entre 1978 e 2010.
Com 72 anos Rui Nogueira, dedicou a sua vida à 7ª arte, iniciou este ano a sua colaboração com a Cinemateca Suíça de Lausana, em colaboração com o responsável desta organização, Fréderic Maire.
A Fundação Rui Nogueira criada em Abril 2009, destina-se a conservar e preservar a grande colecção de DVD, bobines de filmes, livros, fotografias, partituras musicais com o objectivo de as passar para as futuras s gerações. “Será uma obra viva que terá o objectivo de dar a conhecer e despertar o gosto pelo cinema”.
O seu livro “Le cinéma selon Melville” publicado na Inglaterra em 1971, em França em 1973 e traduzido em variadíssimos países, contem, na sua reedição francesa em 1995, uma dedicatória que é uma belíssima homenagem à sua esposa, Nicoletta Zalaffi (1932-1994).
Quem lhe transmitiu o amor pelo cinema? Os seus pais?
Os meus pais não estavam ligados ao cinema. O meu pai sempre sonhou com uma grande propriedade mas não tinha nenhum talento para a agricultura, foi a minha mãe que se ocupou sempre dos negócios, ela foi a primeira mulher que admirei na minha vida.
Fui para Moçambique tinha 4 anos. Quatro anos mais tarde, em Vila Gouveia, para não perder o ano lectivo devido à transferência do meu Pai, que era funcionário dos Correios, para uma outra localidade, fiquei durante uns meses em casa dum casal de enfermeiros, grandes cinéfilos, que me deram a paixão pelo cinema.. Quando mudámos para a cidade da Beira, eu conhecia os filmes de cor mesmo sem os ter visto. Foi assim que começou a minha ligação com o cinema.
Voltou a Portugal em que ano?
Voltei só em 1961. Cheguei a Lisboa no dia 5 de Outubro às seis da manhã e às dez fui preso numa manifestação contra governo de Salazar. Estive preso cerca de 30 horas. Dois meses mais tarde, voltei a ser identificado pela PIDE numa outra manifestação. No dia seguinte, à hora de me apresentar na esquadra da policia, estava já em Paris, que sempre foi, desde adolescente, o meu sonho secreto.. Se pudesse voltaria a ir viver ainda hoje para a capital da França.
Ao longo da sua carreira contactou com grandes nomes do cinema. Pode citar alguns?
Sim conheci os realizadores Nicholas Ray, Jean Renoir, Samuel Fuller, Howard Hawks, Alfred Hitchcock e Otto Preminger, entre outros, e os actores Gene Kelly, Henry Fonda, Edward G. Robinson, Robert Ryan, Katharine Hepburn, Jane Russell, Charlton Heston e muito mais pessoas ligadas ao mundo do cinema, mas o mais importante é a experiência que vem através destes encontros.
Não gostaria de voltar para Portugal?
Agora é demasiado tarde para voltar para Portugal. Já em 1974, depois do 25 de Abril, era tarde demais. Estou ligado à França e à Suíça pela língua ou pelas pessoas ou mesmo através da gastronomia e aqui tenho mais estruturas.
O cinema é a vida?
Voltei só em 1961. Cheguei a Lisboa no dia 5 de Outubro às seis da manhã e às dez fui preso numa manifestação contra governo de Salazar. Estive preso cerca de 30 horas. Dois meses mais tarde, voltei a ser identificado pela PIDE numa outra manifestação. No dia seguinte, à hora de me apresentar na esquadra da policia, estava já em Paris, que sempre foi, desde adolescente, o meu sonho secreto.. Se pudesse voltaria a ir viver ainda hoje para a capital da França.
Ao longo da sua carreira contactou com grandes nomes do cinema. Pode citar alguns?
Sim conheci os realizadores Nicholas Ray, Jean Renoir, Samuel Fuller, Howard Hawks, Alfred Hitchcock e Otto Preminger, entre outros, e os actores Gene Kelly, Henry Fonda, Edward G. Robinson, Robert Ryan, Katharine Hepburn, Jane Russell, Charlton Heston e muito mais pessoas ligadas ao mundo do cinema, mas o mais importante é a experiência que vem através destes encontros.
Não gostaria de voltar para Portugal?
Agora é demasiado tarde para voltar para Portugal. Já em 1974, depois do 25 de Abril, era tarde demais. Estou ligado à França e à Suíça pela língua ou pelas pessoas ou mesmo através da gastronomia e aqui tenho mais estruturas.
O cinema é a vida?
Não o cinema não é a vida, se fosse a vida eu não ia ao cinema. Para citar um exemplo o realizador Hitchcock dizia que quando provocava a morte de um personagem num dos seus filmes a dificuldade era de encontrar a maneira original de filmar essa morte.
Fale-nos dos seus projectos?
Ainda tenho muitos projectos…. Fui forçado a ir para a reforma. O que não consigo perdoar é a maneira como o fizeram. Agiram com muita falta de coragem e sem classe nenhuma... Digo frequentemente que a coragem não é uma qualidade helvética.
Sente-se que a sua mulher está e sempre esteve presente na sua vida.
Sim muito. Um homem pode ter muitas mulheres na sua vida, mas há só duas ou três que contam verdadeiramente. Na minha vida, foi ela quem mais contou. Uma vez, uma realizadora alemã, uma amiga nossa, admirada com a longevidade da nossa vida de casal quis saber qual era o nosso segredo. Disse-lhe: a nossa união dura porque não éramos feitos um para o outro.
Fale-nos da sua mulher e da importância que teve na sua vida.
A minha mulher tinha muitas vezes razão na forma como analisava os filmes. Uma vez disse-me que um filme era mau e eu não queria admitir que ela tinha razão. Digamos que era um filme feito por um realizador cansado. Por causa desta ninharia estivemos à beira da separação. As mulheres, em geral, têm uma intuição, que lhes permite compreender e dar atenção a certos detalhes e subtilidades que passam despercebidos aos homens.
A minha mulher fez muito pelo Manuel de Oliveira. Foi ela quem relançou a carreira dele em Veneza, na segunda metade dos anos setenta. Os filmes dele estavam programados no ultimo dia do Festival e todos os críticos importantes deviam partir na véspera. A minha mulher conseguiu convencê-los, um a um, a ficar mais um dia para verem os filmes do Oliveira. A retrospectiva foi um grande acontecimento e a carreira do cineasta arrancou de novo com o sucesso que se conhece.
Que filme nos aconselharia?
Não sigo com assiduidade a actualidade. Mas, o “Alice” de Marco Martins (2005) e o “Transe” da Teresa Villaverde (2006) parecem-me ser obras muito importantes. “Alice” mostra-nos Lisboa de uma maneira original e muito atraente.
Fale-nos dos seus projectos?
Ainda tenho muitos projectos…. Fui forçado a ir para a reforma. O que não consigo perdoar é a maneira como o fizeram. Agiram com muita falta de coragem e sem classe nenhuma... Digo frequentemente que a coragem não é uma qualidade helvética.
Sente-se que a sua mulher está e sempre esteve presente na sua vida.
Sim muito. Um homem pode ter muitas mulheres na sua vida, mas há só duas ou três que contam verdadeiramente. Na minha vida, foi ela quem mais contou. Uma vez, uma realizadora alemã, uma amiga nossa, admirada com a longevidade da nossa vida de casal quis saber qual era o nosso segredo. Disse-lhe: a nossa união dura porque não éramos feitos um para o outro.
Fale-nos da sua mulher e da importância que teve na sua vida.
A minha mulher tinha muitas vezes razão na forma como analisava os filmes. Uma vez disse-me que um filme era mau e eu não queria admitir que ela tinha razão. Digamos que era um filme feito por um realizador cansado. Por causa desta ninharia estivemos à beira da separação. As mulheres, em geral, têm uma intuição, que lhes permite compreender e dar atenção a certos detalhes e subtilidades que passam despercebidos aos homens.
A minha mulher fez muito pelo Manuel de Oliveira. Foi ela quem relançou a carreira dele em Veneza, na segunda metade dos anos setenta. Os filmes dele estavam programados no ultimo dia do Festival e todos os críticos importantes deviam partir na véspera. A minha mulher conseguiu convencê-los, um a um, a ficar mais um dia para verem os filmes do Oliveira. A retrospectiva foi um grande acontecimento e a carreira do cineasta arrancou de novo com o sucesso que se conhece.
Que filme nos aconselharia?
Não sigo com assiduidade a actualidade. Mas, o “Alice” de Marco Martins (2005) e o “Transe” da Teresa Villaverde (2006) parecem-me ser obras muito importantes. “Alice” mostra-nos Lisboa de uma maneira original e muito atraente.
Nunca pensou em ter filhos?
Não, nunca quis filhos. A minha mulher teve dois gémeos do casamento anterior que foram “educados” pelo pai. Ela sofreu imenso com eles. Para mim, para a vida que sempre pretendi levar, nunca houve lugar para filhos. E nunca me arrependi da minha decisão.
Qual a sua relação com a religião?
Em mim não há nenhuma noção de religiosidade; nenhum sentimento de patriotismo. A minha religião, a minha pátria é o cinema.
Neste mundo do cinema a sedução é muito importante?
A sedução é importantíssima em todos os aspectos da vida. Ou pelo menos em todos os aspectos da minha vida.
Mesmo se tenho um certo número de princípios, penso como o Oscar Wilde: devemos apoiar-nos nos princípios porque um dia ou outro eles acabarão por ceder.
Como foram as relações com as pessoas durante a sua carreira?
Eu sempre tive muita franqueza. Não tenho papas na língua. Sou fiel em amizade, mas nunca evitei os conflitos.
Quais os seus projectos?
Ainda tenho muitos projectos se o tempo permitir vou pôr por escrito todas as bandas magnéticas que possuo. Posso dizer que tenho a minha colecção privada filmes americanos não legendados, mais de 1000 filmes que coleccionei.
Gostaria de fazer uma pedagogia cinematográfica a nível das escolas. Mas o projecto numero um é escrever sobre Cinema.
O que deve ao cinema?
Tudo. Não consigo imaginar a minha vida sem o cinema. Fui educado pelos meus pais, mas os meus exemplos de vida foram o Gary Cooper, o Errol Flynn, o John Wayne. E fiz uma fusão entre o que os meus pais me disseram e o que ouvi no cinema. Os personagens de um filme devem ser maiores que eu, senão não há magia. Por exemplo na televisão os personagens são mais pequenos do que nos e é por isso que a televisão não terá a grandeza do cinema.
Preocupa-o a situação no mundo?
A nossa civilização chega ao fim. O futuro é a China... Estou contente de ter a idade que tenho.
Não, nunca quis filhos. A minha mulher teve dois gémeos do casamento anterior que foram “educados” pelo pai. Ela sofreu imenso com eles. Para mim, para a vida que sempre pretendi levar, nunca houve lugar para filhos. E nunca me arrependi da minha decisão.
Qual a sua relação com a religião?
Em mim não há nenhuma noção de religiosidade; nenhum sentimento de patriotismo. A minha religião, a minha pátria é o cinema.
Neste mundo do cinema a sedução é muito importante?
A sedução é importantíssima em todos os aspectos da vida. Ou pelo menos em todos os aspectos da minha vida.
Mesmo se tenho um certo número de princípios, penso como o Oscar Wilde: devemos apoiar-nos nos princípios porque um dia ou outro eles acabarão por ceder.
Como foram as relações com as pessoas durante a sua carreira?
Eu sempre tive muita franqueza. Não tenho papas na língua. Sou fiel em amizade, mas nunca evitei os conflitos.
Quais os seus projectos?
Ainda tenho muitos projectos se o tempo permitir vou pôr por escrito todas as bandas magnéticas que possuo. Posso dizer que tenho a minha colecção privada filmes americanos não legendados, mais de 1000 filmes que coleccionei.
Gostaria de fazer uma pedagogia cinematográfica a nível das escolas. Mas o projecto numero um é escrever sobre Cinema.
O que deve ao cinema?
Tudo. Não consigo imaginar a minha vida sem o cinema. Fui educado pelos meus pais, mas os meus exemplos de vida foram o Gary Cooper, o Errol Flynn, o John Wayne. E fiz uma fusão entre o que os meus pais me disseram e o que ouvi no cinema. Os personagens de um filme devem ser maiores que eu, senão não há magia. Por exemplo na televisão os personagens são mais pequenos do que nos e é por isso que a televisão não terá a grandeza do cinema.
Preocupa-o a situação no mundo?
A nossa civilização chega ao fim. O futuro é a China... Estou contente de ter a idade que tenho.
Texto: Clément Puippe /Edite Dias Correia
Fotos: Clément Puippe

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